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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A lenda do Quero-quero em duas versões

 
Diz a lenda que lá no começo do mundo, quando a Sagrada família, fugia para o Egito, perseguida pelos soldados do Rei Heródes. Muitas vezes precisou viajar a noite e esconder-se nos matos e campos e durante o dia afugentar-se em grutas da montanha para fugir do sol escaldante e para não ser vista e morta pelos soldados. E quando os perseguidores chegavam perto, precisava estar escondida, em muito silêncio, para não ser encontrada.

Numa dessas vezes, Nossa Senhora escondendo o Divino Gurí (Jesus), pediu aos pássaros e todos aos animais que fizessem silêncio para que os soldados não os encontrassem. Porque os soldados poderiam ouvir e vir atacá-los.
Prontamente todos os bichos acataram o pedido de Nossa Senhora. Até o burrico parecia entender o perigo que a família estava correndo: não empacava e pisava macio. Não fazia o menor ruído ao mudar os passos, parecia que ele sabia de sua grande missão, que era conduzir a sua divina carga ao salvamento. As aves não voavam, ficavam inertes e nem batiam asas.

Mas o quero-quero, alheio aos acontecimentos e por ser uma ave alarmista, sempre alerta, querendo avisar cantando quando alguém se aproximava, não cessava de gritar a sua voz aguda. Não atendeu ao pedido de Nossa Senhora e permaneceu atacando e queria porque queria cantar, quero, quero, quero... Por isso, foi amaldiçoado por Nossa Senhora e até hoje continua querendo e querendo... e sem nada encontrar. 

Versão Gaúcha

Quando a família interiorana do Rio Grande do Sul, Seu Zé e Dona Maria, com seus dois piazitos, um ainda de colo, deixava o campo rumo a cidade grande em busca de sonhos, levava nas costas os poucos pertences, partindo acuada aos roncos de tratores, deixando casa e terras tomadas pelo banco, com secura na alma e a poeira encobrindo os rastros. O calor demasiado do sol obrigava uma sesta pra um sono do piá no colo da mãe à beira da lagoa. Seu Zé, matava a sede sem gestos, nem palavras, sentindo cada palmo de chão que ficou pra trás. Os bichos entendiam a penosa partida da família em silencio. A rã, quieta como uma pedra nas águas. Um casal de socós nem mudava os passos. Mas o afoito casal de quero-queros, com voos rasantes atacavam a família, não deixando o piazinho ninar com os gritos agudos de quero, quero, quero...

Não era hora para "tanto querer". A mãe, sentindo-se incomodada, amaldiçoou: - Tu também hás de "deixar o campo com seus filhos", quero-quero! Por isso que, atualmente, nas idas e vindas pela cidade, encontram-se, na torreira do sol forte, os quero-queros, num viver emprestado, trato racionado, nos pátios das casas e trevos de asfalto, correndo atrás dos filhos para livrar de gatos e pneus de carros... Mas continuam afoitos querendo e querendo!

Fonte: Pioneiro

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